quinta-feira, 30 de julho de 2009
Profissão: crítico de TV
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Por falar em Aguinaldo
A causa está, acredito, em ter duas grandes fortes atrizes nos papéis principais, com personagens muito bem construídos, em dois papéis muito bem pontuados pelo autor, Aguinaldo Silva. Todos amam e odeiam Nazaré Tedesco (Renata Sorrah), a “Naza“, e se compadecem com o sofrimento de Maria do Carmo (Suzana Vieira). Essa seria a minha hipótese, já que contar história de filhos roubados e desconhecidos, nordestinos que saem de sua cidade e vão ganhar a vida no Sul, "favelados" e tantas outras coisas são temas recorrentes, inclusive pelo próprio Aguinaldo (dá para entender um pouco ao ler rapidamente a sua biografia). Basta lembrar de “Pedra Sobre Pedra” (1992), história de amor, rivalidade e paternidade desconhecida entre a família Pontes (Lima Duarte) e Batista (Renata Sorrah) e a mais recente, “Duas Caras” (2007), que para muitos lembrou uma espécie de continuação de “Senhora do Destino”, por ter novamente a presença de um líder comunitário, construção de uma favela, escola de samba e disputa de poder.
Aliás, disputa de poder está entre um dos seus temas favoritos. O que marca de forma mais nítida a obra de Aguinaldo são as questões políticas e pitadas de humor pictórico. Suas tramas tem sempre um jeito de fazer pensar nos políticos corruptos que elegemos: o prefeito de Tubiacanga, Démostenes Massaranduba (José Wilker), de “Fera Ferida” (1993); deputado Pitágoras Mackenzie (Ary Fontoura), em “A Indomada” (1997); e o corrupto Félix Guerreiro (Antônio Fagundes), em “Porto dos Milagres” (2007). A comicidade está no realismo fantástico visto em Jorge Tadeu (Fábio Júnior) e o mito do seu renascimento através de uma flor, no menino excepcional Emanuel (Selton Mello) que virou anjo ao nutrir um amor pela jovem Grampola (Carla Muga) e, claro, o mistério do “Cadeirudo”, que reservava bons momentos de humor no enredo. Marcas que até poderíamos arriscar em chamar de autorais, se não fosse uma obra construída de forma coletiva.
Aguinaldo está novamente em pauta e garante o seu lugar na emissora, mesmo residindo em Portugal, ao promover um Master Class para a formação de novos roteiristas. Em seu blog, ele conta passo a passo desse processo e garante que, se a Globo não aceitar o roteiro escrito por eles, de título "Marido de Aluguel", ele oferecerá para outra emissora (leia-se Record?). Obviamente, a Globo já se comprometeu a fazer uma avaliação e tem pensado em sua produção, já que, pelo rodízio, ele está na lista dos próximos autores a ocupar o horário das 20h. Seria uma prova de quem tem a coroa tem sempre um lugar no reino??
Não podia deixar de dar esse presentinho...a cena do embate:
terça-feira, 26 de maio de 2009
Tudo ao mesmo tempo agora!
Mas, é que vi uma coisa que me chamou muito à atenção, pensando nas nossas discussões sobre a indústria televisiva e todos os seus mecanismos para se manter na autonomia do campo.
A rede de TV americana ABC, da The Walt Disney Company (claro! puxando a sardinha para o meu lado, a mesma que produz a série "Desperate Housewives"), teve uma boa sacada para divulgar os seus produtos de maior sucesso. Eles produziram dois vídeos promocionais em que personagens mais populares de suas séries e apresentadores de programas moram e convivem numa mesma casa. A metáfora, interessante e criativa, é assimilar a casa com a emissora e os personagens com os seus produtos. Faz uma autopromoção, como empresa hegemônica na produção de bons programas, e vende seus produtos, que reune célebres e profissionais! Tudo de uma só vez!
Vejam os vídeos:
segunda-feira, 25 de maio de 2009
"Som e Fúria"...TV e teatro?
Não isso não é uma ironia. É uma ressalva e uma pausa para os aplausos. Saber que a ficção televisiva está se aproximando do teatro, me faz pensar que seja um busca para uma mistura de linguagens muitas vezes necessária e, quase sempre, enriquecedora. Uma aproximação que tem ficado cada vez mais clara pós Projeto Quadrante, de Luis Fernando Carvalho. Declaro que não estou dando os méritos para ele, somente ressaltando que sua obra, tanto “A Pedra do Reino” (2007) quanto “Capitu” (2009), fez deste casamento uma lua-de-mel (mais saborosa para o público, sem dúvidas). A mistura de linguagem, que muitos teóricos insistem em chamar de “híbridismo”, não significa, para mim, somente uma tentativa de beber na fonte. Talvez uma forma de renovação da linguagem televisiva, mesmo que para isso, seja preciso voltar atrás.
Os 12 capítulos da série, com estréia prevista para 07 de julho, são dirigidos por Fernando Meirelles e tem, em seu elenco cerca de 100 atores, grande parte advinda e formada no teatro. Sua história se baseia no cotidiano de uma companhia de teatro “shakespeariana” e suas confusões e problemas na produção de um espetáculo. Ao que parece, o teatro não está só no texto, no assunto, na discussão, mas na estética, na direção, nos enquadramentos, na textura (assim dá para perceber ao ver o vídeo de divulgação).
Quanto ao elenco, só posso dizer que parece mais uma mistura. Atores que nunca dividiram cena ou palco formam o corpo dessa troca de experiência (?): Pedro Paulo Rangel, Andréa Beltrão, Felipe Camargo, Dan Stulbach, Daniel Oliveira, Regina Casé, Rodrigo Santoro, Maria Flor, Chris Couto, Débora Falabella, Paulo Betti, dentre muitos outros! Um mix de tradição e modernidade, teatro e televisão, velho e novo. Uma salada de frutas? Quem sabe? Só esperando para ver.
quinta-feira, 7 de maio de 2009
A mais "nova" Helena
Voltando ao assunto que me trouxe aqui, li um “spoiler” sobre a telenovela “Viver a Vida” que irá substituir “Caminho das Índias”. Pelo “rodízio” da Globo o autor será Manoel Carlos que vem com mais uma de suas “Helenas”. O que me chamou à atenção foi saber quem irá interpretar a personagem caricata, a qual ele homenageia sua mãe. Não será vivida nem por Regina Duarte (Obrigada, Senhor!), nem por Vera Fischer (Ufa!), nem por Maitê Proença e sim Taís Araújo. Para muitos pode não ser surpreendente, mas me faz pensar que seja uma mudança. Primeiro por ela ser negra e segundo por ela ser uma mulher na fase dos trinta anos. Um quebra? Uma quebra de linearidade e “marca” sobre alguns aspectos. Pois, não será uma Helena "bem resolvida" profissionalmente como as outras e também não será chefe de família, espelho de integridade e boa mãe e esposa.
Claro, não acho que isso significará uma mudança do modo como “Maneco” escreve suas tramas. Sem dúvidas, devemos encontrar o lindo bairro do Leblon, muita bossa-nova, merchandising social, conflitos amorosos e dramas familiares, presentes desde a sua primeira Helena, de “Baila Comigo”, em 1981.
O fato é que eu estou curiosíssima para começar a acompanhar, mesmo que seja pela Internet. Os dramas de “Maneco” nos fazem pensar na vida e colocam assuntos em roda de conversas (de salão, de bar, de almoço, do trabalho). Aguardo!
Abaixo, uma entrevista com Taís Araújo falando sobre "Helena":
sábado, 25 de abril de 2009
EXISTE MESMO A CRÍTICA DE TV?

Apesar do texto de Távola ser bem datado, e talvez por isso mesmo, é muito interessante o debate engendrado por ele sobre a crítica de TV. Esta seria bem mais influente que a de cinema ou literatura porque conduz a mediação não apenas com público, mas igualmente com os diretores e roteiristas de TV. Ela pode até ser contestadora, mas protesta dentro da lógica sistema. Segue o texto de Távola escrito em 1976 !
EXISTE MESMO A CRÍTICA DE TV?
Eu só falo sobre o que vale o a pena, só reclamo de quem tem para dar ou do programa que pode melhorar; só exijo de onde pode sair algo bom; só bronqueio com quem gosto; só critico a quem admiro e de quem algo espero; só destaco programas que representam algo vivo, brasileiro, fecundo.
O leitor deve observar minhas constância e insistência em temas, assuntos, programas e profissionais de tevê com algum conteúdo ou forma representativos de significados culturais. Pouco, raro ou nada aludo a programas estratificados na mesmice ou realizados por teimosos definitivos, ou por pessoas que só sabem fazer um gênero e nele ficam a vida inteira mesmo quando já passou e eles não sabem ou fingem não saber.
Estou dizendo essas coisas, pois nesses dias comemoro quatro anos de críticas diárias aqui no GLOBO. Quero - hoje, amanhã e depois - dizer algumas coisas objetivas e subjetivas sobre o relacionamento de um cronista diário com o seu leitorado e com o assunto no qual ele se especializa. É que há anos venho batalhando pelo que chamo de crônica aplicada. Não é crítica . É uma forma de crônica aplicada a um determinado assunto especializado. Chamam da critica de televisão. Va lá. Adoto a expressão, por preguiça de ficar explicando. Mas não é. Em televisão o cronista vê junto com o publico. Testemunha com ele. Isso muda tudo.
Uma das peculiaridades interessantes do crítico de televisão (se é que o gênero existe) é a da poder influir no processo criativo. Ele influi no processo, exatamente porque vê junto com o público.
O critico de teatro influi sobre o publico, a quem orienta. Mas a obra que é alvo de sua critica já está montada, encenada, concebida a dirigida. O critico da cinema, idem. O filme lá está aprisionado no celulóide. Idem o literário. O livro lá está escrito, impresso, distribuído etc.
Vala dizer, até o surgimento da televisão, a crítica sempre funcionou como um guia para o publico, sendo o exercício de uma tarefa cultural da mais alta relevância: a de ser ponte de interpretação e lucidez entre a obra da arte e o público. Nesse sentido, aliás, poucos gêneros atingiram a altura da crítica literária.
Mas da televisão em diante a coisa muda um pouco. Em primeiro lugar, porque a televisão não tem ainda (20 e poucos anos da existência, apenas) um nível de elevação e profundidade das artes a ela anteriores. Em segundo lugar, porque sendo uma indústria cultural a sua preocupação é muito mais com o produto destinado a um consumo previsto, balizado e pesquisado, do que com a idéia de "obra".
Em terceiro lugar surge o dado interessante: na televisão o crítico pode influir. Mesmo que não queira ele participa do próprio processo de criação, da estratégia geral. Este sim é um ponto inteiramente diferente, novo e revolucionário na historia desse que gênero que se chama "critica".
Os programas são semanais. A produção é nacional. A própria dramaturgia televisada (a novela) vai sendo feita enquanto está no ar (é obra aberta, há influências). Na televisão, é muito, muito, incomensuravelmente mais intensa, a mútua influência do trinômio: público, centro produtor, pólos de repercussão (crítica).
Nas outras artes o que funciona é o trabalho solitário do criador. Depois é que se aplicam a esse trabalho os ditames da Industria cultural. Na televisão, não. Nela, o que funciona é uma permanente interação desse trinômio: público (telespectador como um todo expresso nas pesquises diárias); centro produtor (os canais e as redes de televisão) e os pôlos de repercussão (representantes da norma culta da sociedade. Intelectuais (?) que opinam sobre o produto, também chamados de "críticos", por analogia com as artes anteriores à televisão). Este trinômio Inter-age (ó revisão, eu sei que é junto, mas deixe separado "Inter-age". Fica mais claro o conceito porque mais visual a palavra). E é exatamente por isso que a "crítica" de televisão, diferente de toda qualquer outra forma de crítica (teatro, cinema, artes plásticas, literatura), pode influir no processo criativo.
A "crítica" de televisão é bem mais intranscendente; mas é bem mais influente. Ela é parte integrante do sistema que mantém a Industria cultural, por mais que se coloque na posição de permanente contestação. Ela contesta dentro do sistema. E é isso o que fez muita gente torcer o nariz à critica de televisão. Ou o crítico sentir-se culturalmente pouco "importante" por exercê-la, daí ser impiedoso com a tevê.
Além disso, ela não joga apenas (eu disse apenas) com categorias estéticas e ideológicas. Ela precisa se servir igualmente de três outros elementos: da sociologia (da comunicação); da psicologia (Idem) e do conhecimento da técnica de elaboração dos programas, ou seja o solido conhecimento do funcionamento interno tanto de um canal de tevê como de cada programa, como, ainda, da engenhoca eletrônica que edita e corta as imagens, sons, vozes, ruídos etc.
Frente a esse quadro o exercício da "critica" de televisão é um exercício penoso, difícil, dispersivo, eternamente relativista porque sempre depende do ângulo pelo qual se enfoque o problema. E o que acontece geralmente é que os critérios estéticos a ideológicos, por serem mais profundos, básicos, sedutores e determinantes (além de darem mais "status" para quem os utiliza) acabam por predominar sobre os demais. podendo levar a quem exerce a "critica' de televisão a se afundar na negação liminar de um processo como o televisivo que é composto igualmente dos outros vetores já citados.
Cabe, portanto, ao crítico da televisão, muito mais do que enfeixar a verdade definitiva em cada artigo; muito mais do que afirmar os seus critérios estéticos subjetivos, ou as suas necessidades de "status" intelectual em cima de um meio (a tevê) ainda sem tradição cultural; cabe, portanto, ao crítico de televisão, saber-se um agente do próprio processo de "fazer" televisão, com todas as limitações e com todo o poder que isso implica. Se o crítico influi no processo, ele é parte dele. Mesmo que não queira. Mesmo que negue o sistema. É uma contradição e uma limitação que tem de aceitar. Criticando teatro, cinema, livro e artes plásticas ele influi no público e na cultura de seu pais (quando é bom crítico). Criticando televisão ele influi no próprio processo de elaboração da televisão. Ele é tão responsável quanto qualquer diretor de emissora. O "crítico" de televisão, querendo ou não, é uma espécie de advogado do consumidor. Amanhã prossigo.
| Jornal/Revista: O Globo |
| Data de Publicação: 29.10.76 |
| Autor/Repórter: Artur da Távola |
terça-feira, 21 de abril de 2009
As Teses
"Sabe tese, de faculdade? Aquela que defendem? Com unhas e dentes? É dessa tese que eu estou falando.
As teses são todas maravilhosas. Em tese. O mais interessante na tese é que, quando nos contam, são maravilhosas, intrigantes. A gente fica curiosa, acompanha o sofrimento do autor, anos a fio. Aí ele publica, te dá uma cópia e é sempre - sempre - uma decepção. Em tese. Impossível ler uma tese de cabo a rabo.
São chatíssimas. É uma pena que as teses sejam escritas apenas para o julgamento da banca circunspecta, sisuda e compenetrada em si mesma. E nós?
Sim porque os assuntos, já disse, são maravilhosos, cativantes, as pessoas são inteligentíssimas. Temas do arco-da-velha. Mas toda tese fica no rodapé da história. Pra que tanto sic e tanto apud? Sic me lembra o Paquim e apud não parece candidato do PFL para vereador? Apud Neto.
Escrever uma tese é quase um voto de pobreza que a pessoa se autodecreta. O mundo pára, o dinheiro entra apertado, os filhos são abandonados, o marido que se vire.
Orientados e orientandos (que nomes atuais!) são unânimes em afirmar que toda tese tem de ser - tem de ser! - daquele jeito. É para não entender, mesmo, assumem essa confissão. Tem de ser formatada assim. Que na Sourbonne é assim, que em Coimbra também. Na Sourbonne desde 1257. Em Coimbra, mais moderna, desde 1290.
Acho que, nas teses, tinha de ter uma norma em que, além da tese, o elemento teria de fazer também uma tesão (tese grande). Ou seja, uma versão para nós, pobres teóricos ignorantes que não votamos no Apud Neto.
Ou seja, o elemento (ou elementa) passa a vida a estudar um assunto que nos interessa e nada. Pra quê? Pra virar mestre, doutor? E daí? Se ele estudou tanto aquilo, acho impossível que ele não queira que a gente saiba a que conclusões chegou. Mas jamais saberemos onde fica o bicho da goiaba quando não é tempo de goiaba. No bolso do Apud Neto?
Quando é que alguém vai ter a prática idéia de escrever uma tese sobre a tese? Ou uma outra sobre a vida nos rodapés da história?
Acho que seria um tesão."